MPower Brasil participa do Berlin Forum on Global Cooperation
Nos dias 18 e 19 de maio, ocorreu o Berlin Forum on Global Cooperation, que reuniu governos, academia, think tanks e sociedade civil para discutir como construir parcerias mais horizontais entre o Norte e o Sul Global e avançar a transição energética em um mundo multipolar, marcado pelo recuo dos EUA do Acordo de Paris e pela ofensiva da "dominância energética fóssil". Organizado pela Heinrich Böll Stiftung, em parceria com a Universidade Humboldt, a MPower Brasil esteve presente em Berlim, representada por nossa Líder de Projetos Ana Carolina Abreu, para acompanhar os debates.
O que foi discutido?
As discussões do fórum giraram em torno do questionamento de quem vai moldar e para quem será a transição energética global. Entre os principais momentos, destacam-se:
Os keynotes de Jennifer Morgan, ex-secretária e enviada de clima do governo alemão, e o ex-presidente do Chile, Gabriel Boric, defenderam que a transição energética é inevitável. Mas a disputa real é sobre quem a controla, quem se beneficia e para quem ela é construída. Boric foi enfático sobre o fato de que o Sul Global precisa ser ativo na construção de uma governança que não o posicione meramente como um fornecedor passivo de matérias-primas.
No painel sobre a cooperação entre Alemanha e Sul Global, participaram representantes da agência de cooperação alemã, BMZ, do Africa Policy Research Institute (APRI), do Partido Verde alemão e Adriana Abdenur, ex-assessora especial da presidência brasileira. Para Sven Giegold, do Partido Verde, a Alemanha vive uma crise de credibilidade, cortando financiamento climático e desacelerando sua transição justamente quando o vácuo deixado pelos EUA exigiria mais protagonismo e a China apresenta-se como parceira proeminente do Sul Global. Já Adriana Abdenur criticou a postura histórica alemã de cooperar, mas resistir à transferência de tecnologia e manter uma propriedade intelectual restritiva, impedindo o Sul Global de construir uma política industrial. Portanto, para ela, uma cooperação efetiva exige remover essas barreiras e garantir que o valor agregado fique nos países do Sul Global.
Em outro painel sobre cooperação em mundo multipolar, painelistas da África, Ásia e América Latina apontaram que a pobreza energética, a segurança alimentar, o espaço fiscal para serviços públicos e prioridades dos povos tradicionais e dos trabalhadores do "chão de fábrica” devem ancorar a agenda da transição energética e não apenas os fluxos de commodities ou a rivalidade geopolítica.
Por fim, o painel de encerramento sobre geopolítica, guerra, energia e gênero trouxe a dimensão de gênero para o centro do debate energético. Os detalhes você confere abaixo.
Destaques sobre a agenda de mulheres e energia
O painel de encerramento, com Jennifer Morgan e Adriana Abdenur (fundadora do primeiro think tank brasileiro liderado por mulheres), trouxe a leitura mais provocativa do fórum.
Alguns pontos centrais foram:
Jennifer Morgan chamou atenção para a "lógica rasa” por trás do ímpeto por “energy dominance” que se materializa no poder definido como dominar salas em vez de cooperar entre iguais. Uma característica da masculinidade centralizadora e autoritária hoje encarnada por Trump, Putin, Xi Ji Ping e Victor Orbán, que dificulta ou até mesmo corrói parcerias e diretamente atrelada à defesa da economia fóssil.
A defesa do regime fóssil se entrelaça com papéis patriarcais, chamados de "petro-masculinidade”ou "petro-machismo”. No Brasil, Adriana destacou que o petro-machismo é estrutural, inclusive dentro de partidos progressistas, onde mulheres ainda ocupam poucos cargos e, quando ocupam, com orçamentos pequenos.
Adriana Abdenur também salientou que, no Brasil, a pobreza energética está diretamente ligada com a vulnerabilidade de mulheres, uma vez que choques de preço atingem primeiro lares chefiados por mulheres (especialmente mulheres negras) e se convertem rapidamente em insegurança alimentar. A perspectiva europeia, centrada em acessibilidade e empregos, precisa ser ampliada.
Outra questão abordada foi a necessidade de desmistificar que a promoção de renováveis é uma pauta exclusivamente progressista e/ou femina. A China lidera em renováveis, mas com poder centralizado, repressivo e masculino. Portanto, para a construção de uma transição energética efetivamente justa é preciso legitimidade democrática, participação de todos os setores e justiça social.
Jennifer propôs como contraponto à dominância fóssil uma economia baseada em colaboração, escuta e cooperação horizontal. Um estilo de liderança que muitas vezes é visto como feminino, mas não é biologicamente determinado, e que muitos homens praticam e devem praticar cada vez mais.
Principais conclusões desde Berlim
O Berlin Forum on Global Cooperation reforçou o que orienta a MPower Brasil: não há transição energética justa, eficaz ou sustentável sem mulheres em posições de decisão; nos conselhos, nas mesas de negociação internacional, nas mediações de conflito e na formulação de política industrial verde.
A MPower segue comprometida em garantir que nenhum talento feminino fique fora dessa resposta.